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by Daniel Oliveira
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Vivemos em cidades que não param de se cobrir. Camadas de tinta, de publicidade, de betão, de fachadas reabilitadas que expulsam a memória de quem lá viveu. As ruas de Lisboa, do Rio de Janeiro, de Hong Kong ou do Cairo são palácios de acumulação. Num mundo obcecado em adicionar conteúdo ou ruído, Vhils faz exatamente o contrário. Subtrai. Escava. Destrói para revelar. Alexandre Farto, que o mundo conhece como Vhils, começou a pintar grafitis aos doze anos no Seixal, num Portugal que ainda digeria as transformações do pós-25 de Abril e da integração europeia. Mas o trabalho de Vhils não se esgota numa técnica tão peculiar como espetacular. Quando esculpe o rosto de um morador despejado de uma favela carioca na parede da casa que lhe vão demolir, está a fazer uma escolha política: a de que os ícones de uma cidade não têm de ser os heróis dos livros de história, mas as pessoas comuns que a habitam. Nesta hora falamos de paredes, muros e do que eles escondem. De cidades que se parecem cada vez mais umas com as outras e de comunidades que resistem. De arte que nasce para morrer e de uma estranha forma de eternidade que nenhum algoritmo consegue replicar. De turismo que transforma bairros em cenários e de pessoas que se recusam a ser figuras decorativas da sua própria história. E de um artista de rua que acabou a fazer o mais institucional das obras: o retrato oficial do Presidente da República. See omnystudio.com/listener for privacy information.
Há quase um mês que somos bombardeados com imagens de guerra e destruição com a estética de videojogo. Explosões filmadas por drones, gráficos de mísseis, comunicados triunfalistas. Mas por trás das imagens há um país de noventa milhões de pessoas, uma orgulhosa civilização com cinco milénios e um conflito que não começou há três semanas. Está latente há quase cinco décadas, desde que uma revolução islâmica derrubou uma monarquia sustentada pelos Estados Unidos – que por sua vez tinha derrubado uma democracia de Mossadegh que beliscou os interesses ocidentais. Património da UNESCO, agora parcialmente destruído pelos mísseis, o Palácio Chehel Sotoun, tem um fresco que retrata a batalha de Chaldiran, em 1514. Celebra uma derrota. Na cultura xiita o martírio não é sinal de fraqueza. O regime colegial iraniano não é tão fácil de decapitar como o de Saddam e assenta numa ideia de resistência ao exterior. Não tem a arma nuclear, mas tem o Estreito de Ormuz. Faz mossa aos Estados Unidos, nem tanto a Israel. E este desencontro pode complicar o fim desta guerra. O convidado é Ricardo Alexandre, editor da TSF, onde apresenta o Estado do Sítio e o Mapa Mundo. Doutorado em Ciência Política pelo ISCTE, com reportagem de guerra nos Balcãs, Palestina, Afeganistão e Irão, esteve no país em 2005 e 2015 e acaba de publicar Tudo Sobre o Irão, um impressionante retrato de 448 páginas que vai da história dos velhos reinos persas à morte de Khamenei, da análise do sistema político iraniano até à influência cultural do futebol nesse país e da figura de Carlos Queiroz.See omnystudio.com/listener for privacy information.
EUA e Israel bombardeiam o Irão há mais de uma semana. A maior potência militar do mundo entrou em guerra sem autorização do Congresso, sem mandato das Nações Unidas, sem coligação internacional e sem uma justificação que se mantivesse coerente durante mais de vinte e quatro horas. Este episódio com Francisco Pereira Coutinho, professor catedrático e autor do livro Guerra, Mentiras e Direito Internacional, a propósito dos quatro anos da invasão e guerra na Ucrânia, parte dessa escalada militar para discutir o estado do direito internacional e a fragilidade da ordem multilateral. Não é a primeira vez, nem será a última, que o direito internacional é violado. Mas há uma diferença entre contornar as regras e assumir, abertamente, que estas são um empecilho. Washington e Telavive falam em mudança de regime, mas o Irão não é a Venezuela: é um país de noventa milhões de pessoas, com centenas de milhares de guardas revolucionários (que sabem que serão mortos com a queda do regime), uma estrutura de poder colegial e profundamente ideológica e um instinto de sobrevivência que os ataques externos tendem a reforçar, não a enfraquecer. Ninguém parece ter um plano para o dia seguinte e a experiência do Iraque e da Líbia deixa-nos péssimos exemplos do que acontece quando se destrói um Estado. Ou o caos ou um regime mais brutal para restabelecer a ordem.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Durante dias, vimos um país a duas velocidades. Em Leiria, uma cidade e uma região devastada, com infraestruturas destruídas, empresas paradas e milhares de pessoas sem eletricidade. Um território em colapso, onde o Estado parecia não chegar, ou chegar tarde. Em Coimbra, dias depois, uma cidade que se preparava para o pior, com evacuações, barragens a descarregar e uma tentativa de controlar o que já não dependia apenas da chuva, mas da forma como o sistema estava montado para responder a ela. Podemos ser benévolos e dizer que a diferença está entre os momentos: a surpresa e a compreensão do que estava em causa. Entre o “país de faz de conta”, gritado pelo presidente da Câmara de Leiria a um governo que parecia ignorar o sucedido, e a “coordenação” elogiada por Ana Abrunhosa abriu-se uma fratura difícil de ignorar. Falharam comunicações, falhou o SIRESP, falhou a resposta nacional — mas também ficou exposto algo mais profundo: um país com infraestruturas pensadas para um clima que já não existe, pouca manutenção e um Estado que reage de forma desigual consoante o território. O Governo anuncia agora milhares de milhões para a reconstrução, mas levantam-se mais dúvidas do que certezas. Estamos a responder à emergência ou a aproveitar a crise para aprovar medidas que o governo sabe polémicas, como a reformulação do INEM e Proteção Civil? E, ao condensar um programa de governo no que deviam ser apoios de urgência à reconstrução de infraestruturas e empresas, não estamos a correr o risco de atrasar a resposta? No Perguntar Não Ofende, conversamos com os dois rostos que estiveram na linha da frente desta resposta e foram elogiados por serem, por um lado, o rosto do Estado que não falhou, e, por outro, a voz das populações quando ela era urgente. Gonçalo Lopes é presidente da Câmara de Leiria desde 2019 (quando substituiu o presidente Raul Castro), e Ana Abrunhosa é presidente da Câmara de Coimbra há escassos meses. Falamos sobre o que estas cheias nos dizem sobre o país, a organização do Estado e a forma como tratamos o território e preparamos o futuro. E sobre o futuro destas regiões devastadas.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Há anos que discutimos o crescimento da extrema-direita como reflexo de um mal-estar económico e social, entregando-lhe quase sem resistência a representação política do descontentamento. Mas talvez a pergunta decisiva venha antes das urnas: quem decide hoje a forma como nos informamos e quem molda aquilo que queremos saber quando pensamos em política? Temas que não surgiam no topo das preocupações dos cidadãos — como a imigração, a segurança ou questões culturais laterais — tornaram-se centrais no debate público. Não por força de maiorias sociais, mas pela repetição e pela capacidade de dominar a atenção mediática. A extrema-direita pode não ganhar eleições, mas ganha tempo de antena, centralidade e a normalização do seu discurso e das suas prioridades. É sobre este duplo movimento — media tradicionais e mediação através de algoritmos totalmente opacos — que recebemos novamente Joana Gonçalves Sá, licenciada em Engenharia Física Tecnológica pelo Instituto Superior Técnico e doutorada em Biologia de Sistemas pelo ITQB-NOVA, com tese desenvolvida na Universidade de Harvard. Investigadora nas áreas dos sistemas digitais, algoritmos e inteligência artificial, é coautora de dois estudos recentes que analisam a relação entre visibilidade mediática, extrema-direita e motores de pesquisa.See omnystudio.com/listener for privacy information.
A primeira volta das eleições presidenciais confirmou tendências que vinham a ser ensaiadas nas legislativas, mas libertaram-nas de uma disciplina partidária que parece cada vez mais artificial. O que saiu da primeira volta foi uma fragmentação da direita, voto útil à esquerda, normalização da extrema-direita e um eleitorado cada vez mais solto, mais tardio nas decisões e menos fiel às siglas. Pela primeira vez em cinquenta anos, os candidatos apoiados por PS e PSD não chegam a conquistar metade do eleitorado. O centro político, que durante décadas estruturou a democracia portuguesa, já não organiza o voto como organizava. A direita estilhaçou-se, o PSD perdeu capacidade de hegemonia no seu próprio campo, o Chega deixou de ser tabu para uma parte relevante do eleitorado conservador e o espaço político do PS surge, para muitos, menos como projeto político do que como garante de estabilidade. Outras coisas mostram-se mais estáveis do que se pensava: ser socialista não é, final, estigma eterno e a independência partidária não chega para ganhar eleições. Para perceber o que mudou na sociologia do voto, no sistema partidário e nos próprios limites da análise eleitoral, conversamos com Pedro Magalhães, uma visita assídua do Perguntar Não Ofende, nos balanços eleitorais. Investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, doutorado pela Ohio State University, antigo diretor do Centro de Sondagens da Universidade Católica, tem estudado ao longo das últimas décadas o comportamento eleitoral, opinião pública e sistemas políticos comparado e é uma das vozes mais consistentes na leitura dos ciclos políticos portugueses.See omnystudio.com/listener for privacy information.
António José Martins Seguro, assim aparecerá nos boletins de voto, foi candidato muito antes de o ser. Malquerido por muitos dos seus camaradas, apoiado por tantos outros, tornou-se, perante a ausência de outras alternativas no espaço socialista, na escolha inevitável do PS. O mal-estar tem mais de uma década, mas nem assim ficou enterrado num passado traumático. Apresenta-se como um candidato para lá dos partidos, apesar de ser, como Marques Mendes, Cotrim de Figueiredo e Catarina Martins, ex-líder partidário. Além disso, foi secretário-geral da JS, deputado, eurodeputado, ministro e secretário de Estado. A diferença é que está, de facto, afastado da vida partidária há muito tempo. Apresentou-se acima do estatuto que lhe deu visibilidade e, talvez por isso, hesitou dizer que é de esquerda e socialista e recebeu de braços abertos apoios de passistas. O ex-secretário-geral socialista é o convidado deste episódio do Perguntar Não Ofende.See omnystudio.com/listener for privacy information.
Esta conversa com José Manuel Pureza no Perguntar Não Ofende parte do contraste entre o passado recente do Bloco de Esquerda e a sua situação atual. O episódio revisita um partido que alcança votação expressiva e forte presença parlamentar sem nunca conseguir uma implantação social sólida, seja no plano autárquico, sindical ou militante. Essa fragilidade estrutural surge como elemento central para explicar a dificuldade em interpretar mudanças no país e em resistir a contextos políticos adversos. O declínio eleitoral recente ocupa um lugar central na entrevista. A queda para uma deputada única é apresentada como um ponto de rutura que obriga a uma redefinição estratégica e organizativa. A crise do Bloco é descrita como existencial, agravada pela escassez de militantes, pela falta de recursos próprios e pela perda de representação parlamentar, que limita drasticamente a visibilidade política do partido. É neste contexto que José Manuel Pureza assume a coordenação do Bloco. A entrevista enquadra a sua escolha como um regresso às origens do partido, com uma liderança associada à moderação e à primeira geração bloquista. Fora do Parlamento, Pureza enfrenta simultaneamente uma crise política, organizativa e financeira, sendo chamado a fazer balanços do passado recente para perceber se deles podem emergir pistas para o futuro, seja através de um renascimento do Bloco, seja como parte de um processo mais amplo de reconstrução da esquerda.See omnystudio.com/listener for privacy information.
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É mais que uma entrevista, é menos que um debate. É uma conversa com contraditório em que, no fim, é mesmo a opinião do convidado que interessa. Quase sempre sobre política, às vezes sobre coisas realmente interessantes. Um projeto jornalístico de Daniel Oliveira e João Martins. Imagem gráfica de Vera Tavares com Tiago Pereira Santos e música de Mário Laginha.
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