Horizonte de Eventos

Horizonte de Eventos - Episódio 97 - Uma Breve História do Proejto SETI - Parte II

May 12, 2026·54 min
Episode Description from the Publisher

Em abril de mil novecentos e sessenta, num vale enrugado das montanhas Apalaches, um astrônomo de vinte e nove anos chamado Frank Drake subiu numa antena de oitenta e cinco pés antes do nascer do sol, se enfiou numa cabine do tamanho de uma lata de lixo no foco da parabólica e apontou o equipamento para uma estrela chamada Epsilon Eridani. Tinha um orçamento total de dois mil dólares, um receptor caseiro ajustado a chave de fenda, e a esperança secreta de que quase toda estrela parecida com o Sol carregasse, em algum lugar do rebanho de planetas, uma espécie tagarela como a nossa.Foi o primeiro experimento moderno de busca por inteligência extraterrestre. Também foi o primeiro falso alarme da história da SETI. Logo no primeiro dia, um sinal perfeito de oito pulsos por segundo atravessou o alto-falante da sala de controle e, por alguns minutos vertiginosos, pareceu ter mudado tudo. Era um avião de espionagem.Um ano e meio depois, num fim de semana de Halloween, Drake reuniu nove colegas numa salinha do mesmo observatório de Green Bank. Estavam ali um futuro Nobel de Química, um neurocientista que tinha decidido que conversar com golfinhos era o melhor treino para conversar com alienígenas, e um aluno de doutorado chamado Carl Sagan que ainda não era ninguém. Naquele encontro, depois de uma noite regada a champanhe e do anúncio do Nobel de Melvin Calvin pela linha direta com Estocolmo, Drake foi até o quadro-negro e escreveu sete letras gregas multiplicadas umas pelas outras. Saiu dali a equação mais famosa da astrobiologia.Este episódio conta essa história. Como uma pergunta sem nome saiu da literatura especulativa e virou um experimento de laboratório com orçamento de prefeitura. Como dez pessoas, em três dias trancadas numa região do mundo onde o sinal de rádio é proibido por lei, inventaram um campo inteiro da ciência. Como a equação de Frank Drake deixou de ser uma calculadora para virar um espelho, em que cada geração enxergou suas próprias preocupações refletidas. Os anos sessenta enxergaram a bomba. Os anos noventa, a redução do orçamento da ciência. Os anos vinte do século vinte e um estão enxergando o clima.Há um detalhe na equação que poucos param para pensar com o cuidado que ele merece. Os seis primeiros termos dependem da física, da química e da biologia do universo. O sétimo, o L, depende da longevidade da civilização que transmite. É o único termo que cada espécie tem nas próprias mãos. É também o único que ninguém ainda conseguiu medir. Drake morreu em dois mil e vinte e dois, aos noventa e dois anos, sem ter visto um único sinal confirmado. A equação dele continua aberta no quadro-negro coletivo da espécie humana.Uma hora de escuta sobre o Projeto Ozma, sobre a Ordem do Golfinho, sobre o paradoxo de Fermi, sobre o sinal Wow!, sobre o Voyager Golden Record que hoje navega o espaço interestelar a vinte e cinco bilhões de quilômetros, e sobre a pergunta que não para de se desdobrar: quanto tempo a janela da Terra vai continuar transmitindo para o universo?

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